Roger Waters é um músico famoso. Foi cantor e compositor do Pink Floyd, uma das bandas mais reverenciadas do século passado. Ajudou a cunhar gêneros como "rock progressivo" e "ópera rock". E, atualmente, roda o mundo com uma turnê comemorativa de 30 anos do álbum "The wall", considerado o mais popular da discografia do grupo. Mas Waters, que se apresenta na noite de hoje (29), no Estádio do Engenhão, parece não ter mais tanta vontade assim de falar sobre música. É a conclusão que se chega após a entrevista coletiva concedida pelo artista britânico na tarde de ontem (28), num hotel da Zona Sul do Rio de Janeiro.
A razão não ficou explícita durante a conversa com os jornalistas, mas Waters deu pistas dos motivos que podem tê-lo levado a mudar de assunto depois de tantos anos empunhando contrabaixos e violões diante de um microfone.
"Há certas culturas que querem nos vender uma noção de vida que não corresponde ao que a vida é de verdade. O muro da desinformação é provavelmente a força mais potente e negativa que existe", sentenciou o compositor, de 69 anos.
Antes do encontro, a produção avisa: a primeira parte da entrevista será destinada apenas às perguntas sobre a questão palestina. Afinal, o músico foi convidado para anunciar o Fórum Social Mundial Palestina Livre, em Porto Alegre. "Um amigo que faz parte do Palestinian BDS (Comitê Nacional Palestino) me abordou: 'Você faria o anúncio deste encontro que vai acontecer em Porto Alegre , em novembro? 'E eu respondi: 'Sim, eu farei'. É simples assim", contou o cantor, que não deve participar do evento.
"Não sou muito bom em debates, fóruns, reuniões ou encontros. Não gosto de falar para grandes grupos. E não costumo render nessas situações. Nunca poderia ser um político", justificou-se o autor de canções como "Money", "Brain damage" e "Another brick in the wall, pt. 2".
A questão palestina também se apresentou de forma simples para Waters, como ele mesmo descreveu. "Fui a Israel para fazer um show em 2006. Deveríamos nos apresentrar num estádio de futebol em Tel Aviv (a apresentação acabou acontecendo em Neve Shalom ). A partir daí, comecei e receber e-mails de gente do mundo inteiro, me alertando para o BDS (Comitê Nacional Palestino). Então decidi que deveria ter a cabeça aberta para estas questões. Viajei bastante pela Cisjordânia e pelos territórios ocupados e, uma vez que você toma conhecimento do muro que eles construíram por lá, e ouve os dois lados, rapidamente fica bem claro que há apenas um lado dessa discussão com razão."
Homenagem
Waters chegou a distribuir um comunicado por escrito em que pede pelo fim da ocupação israelense em terras palestinas e sugere a criação de um Estado Palestino com a capital em Jerusalém. Durante a entrevista, defendeu a ideia de que Israel deve retornar aos limites da Linha Verde, fora dos territórios palestinos, criada em 1967.
"Devemos exterminar a ideia de que a Palestina é um estado terrorista. Claro que há várias questões internas que precisam ser resolvidas, como de que maneira querem ser governados. Mas acho que a paz é viável. Talvez não agora, mas nos próximos anos", sentenciou o baixista.
O eletricista brasileiro Jean Charles de Menezes, morto por policiais britânicos em Londres, em 2005, ao ser confundido com um terrorista, também foi lembrado por Waters e será homenageado durante o show desta quinta.
Nenhum comentário:
Postar um comentário